MC encarnava o espírito dos jovens empreendedores e alegava não
precisar da escola para ser "inteligente". Em momentos como esse a
lógica e a paciência dão lugar ao intransigente e austero - o que faz
parte (além de ser bastante divertido) de ser pai:
-Já para o chuveiro Maria Clara! - grita a mãe em tom enérgico.
O pai endossa esculpindo a cara mais ameaçadora que podia
dispor. MC sai batendo os calcanhares em direção ao banheiro, liga o chuveiro e fecha a porta do box. Os pais começam então a debater a
necessidade de aumentar os níveis disciplina e respeito hierárquico de
servidor público para forças especiais; discretamente um tufo de cabelo é
visto transpassando o umbral da porta.
(MC têm problemas sérios para entrar em modo camuflagem - o cabelo está sempre sempre denotando sua posição)
O pai sabendo agora da presença da mini-espiã aumenta o tom da ameaça:
-Agora - diz pegando propositalmente o bicho de pelúcia mais estimado - é assim: desobedeceu perde um brinquedo.
A mãe concorda e a conversa segue.
Terminada as deliberações ouve-se a porta do box correr puxada com
absoluta delicadeza e descrição. O pai passando pela porta do banheiro
ouve um lamento:
-Isso não é justo - uma fungada.
-Eu sou apenas uma criança - continua resignada.
O pai admite que gostaria de poder ignorar os lamentos e deixar que as
novas informações sobre o status disciplinar fossem devidamente
fermentadas na psiquê da meliante (conforme indicariam todos os
psicólogos infantis) mas foi impossível:
-Que houve!?
Ao entrar
no banheiro o pai se depara com a guira sentada em sua cadeira de
brinquedo, com os cotovelos apoiados nas coxas, o queixo apoiado nas
palmas das mãos, a água caindo-lhe nas costas e um semblante desolado:
-Não é justo! - diz em tom anarco proletário atuante.
-O que!?
-Pensa que eu não ouvi vocês planejando mandar em mim!? - diz MC
elevando o tom para aquele que se usa em sequências finais de filmes de
espionagem.
-Pensa que eu não ouvi, hein!?
O pai tenta assumir um tom condizente e rebate:
-É claro que a gente manda em ti! - dá um passo á frente, abaixa o tronco e olha a pequena nos olhos - Somos seus pais!
-Isso não é justo! - rebate a rebelde infantojuvenil.
Cruza os braços sobre o abdome, deixa cair o queixo sobre o peito e diz em tom de derrota:
-São dois contra um....
...
(O pai imediatamente renovou a ração e a água do cão para manter a
maioria da base aliada. Afinal de contas nunca se sabe o que a oposição
pode estar armando).
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