segunda-feira, 25 de março de 2013

No passado...

Em fase final de recuperação de uma Dengue o pai - ainda combalido - jogava video-game com a filha no quarto:
-Cabeção - diz o pai em tom alegre - eu vou dormir porque amanhã eu vou trabalhar...
-Fe - responde a filha pausando imediatamente o jogo - ainda tem muitas fases para fazer e a princesa - aquela ruivinha de vestido empolado que todos vocês já salvaram pelo menos uma vez-  não pode ficar esperando...
-Batatinha, tá tarde - diz o pai sonolento e já saindo do quarto.
A guria ainda concentrada em fazer um senhor de meia-idade com bigodes de chinchilla e usando suspensórios pular sobre tartarugas ignorou a saída do mesmo.
Passados alguns minutos o pai já sonhava estar vestindo suspensórios e tentando convencer um computador-tartaruga a trocar de casco sem anestesia quando lamentos nervosos o despertam:
-... você pegava na minha mãozinha e me ensinava!? Por que não pode mais ser assim!?
Em prantos a guria, com o controle na mão e debulhada em lágrimas - que fariam Fidel Castro engrossar o coro - perguntava aflita.
-O que foi filha!? - pergunta o pai assustado com o choro.
A pequena dramática respira fundo - com aquele ar de revelação final de novela - e desabafa:
-Por que não pode ser como era no passado!? Eu era tão feliz...
Intrigado com que mágico passado feliz poderia uma criança de 4 anos ter o pai balbucia:
-Que passado filha!? Quando a gente te ensinou a andar!?
-Não pai - diz a pequena em lágrimas agora do tamanho de pérolas - Eu sei andar...
-Então o que filha!? - Pergunta o pai agora curioso como o ator que vai saber que é pai da mocinha da trama
-Quando você me ensinou a jogar video-game...

domingo, 3 de março de 2013

Eu sei...

Orgulhosa a mãe exibe o mesmo penteado de sempre agora com madeixas niponicamente lisas:
-Gostou do cabelo da mamãe, filha!?
MC já saltitando no chuveiro responde alegre:
-Adorei mãe! Ficou fantástico.
A mãe ansiosa por adiantar o cronograma da  Guerra dos Clones dá a deixa:
-Quer deixar seu cabelo igual a da mamãe!?
MC desdenhosamente orgulhosa e orgulhosamente desdenhosa responde de pronto:
-Não mãe - balançando as madeixas molhadas! Eu ADORO meu fuá!
Agora a mãe empenhada na busca eterna que move todas as matriacas procura piedade, aceitação e quem sabe um pouco de compaixão na pequena:
-Seu cabelo é muito mais bonito que o meu filha... - e aguarda esperando que a pequena mostre que há amor ao próximo e civilidade em seu coração.
MC coloca o próprio cabelo nas mãos, alisa-os carinhosamente e trucida como tal qual um bárbaro montando um corcel negro pilhando uma vila medieval:
-Eu sei...
...