Em fase final de recuperação de uma Dengue o pai - ainda combalido - jogava video-game com a filha no quarto:
-Cabeção - diz o pai em tom alegre - eu vou dormir porque amanhã eu vou trabalhar...
-Fe - responde a filha pausando imediatamente o jogo - ainda tem muitas fases para fazer e a princesa - aquela ruivinha de vestido empolado que todos vocês já salvaram pelo menos uma vez- não pode ficar esperando...
-Batatinha, tá tarde - diz o pai sonolento e já saindo do quarto.
A guria ainda concentrada em fazer um senhor de meia-idade com bigodes de chinchilla e usando suspensórios pular sobre tartarugas ignorou a saída do mesmo.
Passados alguns minutos o pai já sonhava estar vestindo suspensórios e tentando convencer um computador-tartaruga a trocar de casco sem anestesia quando lamentos nervosos o despertam:
-... você pegava na minha mãozinha e me ensinava!? Por que não pode mais ser assim!?
Em prantos a guria, com o controle na mão e debulhada em lágrimas - que fariam Fidel Castro engrossar o coro - perguntava aflita.
-O que foi filha!? - pergunta o pai assustado com o choro.
A pequena dramática respira fundo - com aquele ar de revelação final de novela - e desabafa:
-Por que não pode ser como era no passado!? Eu era tão feliz...
Intrigado com que mágico passado feliz poderia uma criança de 4 anos ter o pai balbucia:
-Que passado filha!? Quando a gente te ensinou a andar!?
-Não pai - diz a pequena em lágrimas agora do tamanho de pérolas - Eu sei andar...
-Então o que filha!? - Pergunta o pai agora curioso como o ator que vai saber que é pai da mocinha da trama
-Quando você me ensinou a jogar video-game...
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