Com a missão de adquirir um novo aparelho móvel MC e os progenitores vão a um shopping da cidade. Munidos de espírito de Páscoa e paciência entram na loja da Operadora para serem - como sempre - recebidos pelo mais lerdo entre os formandos da Escola Michelangelo de Formação de Atendentes.
MC quebrando os próprios paradigmas perdeu a paciência em 3 minutos - o que geralmente acontece em 2. Tentando entreter a guria nos momentos tediosos nos quais o intrépido atendente leva para preencher o cadastro o pai apresenta a guria a uma mesa de guloseimas ofertada por uma fabricante de celulares. Pães, doces, sucos e outras guloseimas adornam o pic-nic indoor:
-Fe - pergunta MC ainda cabreira - é de pagar!?
Genuinamente preocupada como se fosse o dinheiro dela própria a correr riscos.
-Não filha - responde o pai servindo-se de um café - pode pegar a vontade.
O termo "a vontade" para adultos e crianças tem significados bastante diferentes. Os adultos servem-se a vontade de um café e uma bolacha enquanto as crianças fazem uso literal do termo.
Primeiro uma bolacha com um certo ar de timidez e acompanhada do pai, depois um pedaço de bolo já saltitante e depois disso foram inúmeras viagens até onde estava a mesa. Na última delas MC volta com um sanduíche em cada mão e um ainda em processo de mastigação. Sob o olhar de censura dos pais, engole o que está na boca e enquanto ajeita-se para sentar deixa escapar um traque (também conhecido como pum, flato, peido e demais variações). Sim, um daqueles altos e sonoros que ecoa e reverbera pelo recinto todo. Daqueles que tu só consegue emitir - sem culpa - na solidão do próprio banheiro. A loja inteira parou o que estava fazendo e olhou para... o pai! Claro, porque culpar uma criança de olhos tão profundos e sinceros por tal mácula aos bons costumes seria ofensivo. MC olha em volta e sem se aperceber - ou até sabendo - do ocorrido finge descaso e desconhecimento olha para os pais e diz:
-Hummm, tá tão gostoso o sanduíche, quer um!?
...
Já de posse do celular os pais decidem - quem sabe sob o efeito da comilança da guria na loja - que é hora de tomar um café. MC afoita senta-se na mesa e espera ansiosamente seu quinhão de refrigerante e pão de queijo. O pai esperando à fila começa a observar a impaciência da guria. Crescendo, crescendo e crescendo até que irrompe e um ataque forçado de tosse:
-Cof,cof, cof...
Dispara a pequena atriz. Cada vez mais alto e mais repetido. Forçando a garganta a pequena - naturalmente pálida no tom de pele - fica cada vez mais vermelha. O pai conhecedor que é dos "encantos" da filha continua sólido na fila e chegada sua vez começa a pedir quando percebe que as atendentes começam a olhar para trás já com uma certa aflição de ver uma guria que se contorcia em tosse e uma mãe que nada - além de arreliar com a guria - fazia:
-Nossa gente, a menina está passando mal - comenta uma delas.
-Tem mãe que não...
-Não é nada - interrompe o pai com ar sério.
-Oie!? - Pergunta a Segunda - O Senhor conhece!?
-Ô... - Responde o pai em tom de condescendência e consentimento.
-Sua filha!? - Pergunta a primeira incrédula!?
-Ô... - Responde o pai em tom de condescendência e consentimento.
-Isso tudo é fita!? - Completa a segunda
-Ô... - Responde o pai em tom de condescendência e consentimento.
Assim que a garrafa de refrigerante chega à mesa a tosse desaparece para felicidade - e alívio - das atendentes que já confabulavam sobre a necessidade ou não de chamar os paramédicos.
MC toma um gole generoso e... ARROTA - na mesma intensidade do pum da loja - e diz:
-Ah que delícia!
Limpa a boca e completa:
-Essa tosse me deu sede.
...
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