MC tentava sem sucesso esticar um lençol entre duas cadeiras:
-Ai como eu sou burra!
Dizia em alto, potente e claro som para quem quisesse - ou não - ouvir:
-Menina burra! - dizendo de si para si mesma em total derrotismo - Tu nunca vai conseguir fazer essa barraca!
O pai - que já bem conhece os níveis de dramaticidade próprios (e toda a carga geneticamente herdada de ambos os lados da família) da pequena - segue por ignora-la forma solene e plácida enquanto pode:
-Pai - diz com os olhos esmeralda brilhando em intensidade pedinte de porta de igreja em véspera de Natal - me ajuda a fazer uma barraca!?
Pois, como sempre, pôs-se então o pai a ajudar; puxa daqui, amarra de lá e estica de acolá. MC já, como é de seu costume, assumiu postura de fêmea alfa e deixou de lado o trabalho assumindo, logo, a gerencia o projeto:
-Pai, precisa cobrir tudo! - diz enquanto demonstra que as "paredes" deveriam vir até o chão.
-Por que!? - pergunta o pai enquanto amarrava as pontas da tenda.
-Porque é uma balada!
(Por um momento - que pareceu eterno - o pai respirou fundo e imaginou sua cria - amada, idolatrada e salve salve cria - na balada. Cercada de indivíduos mal-intencionados, alcoolizados e dispostos as mais descaradas atrocidades para com sua pequena cria - amada, idolatrada e salve salve cria.)
-É o que!? - engoliu seco a saliva que não tinha.
-Balada pai; - diz enquanto ajeita as bonecas debaixo da tenda - não sabe o que é!?
-Eu sei sim; - lembrando vagamente de que um dia ele próprio foi um indivíduo mal-intencionado, alcoolizado e disposto as mais descaradas atrocidades para com a filha de outrem - e a senhorita, sabe!?
(Por um momento - que pareceu nem mesmo existir - o pai esperou (e orou - mesmo sendo declaradamente ateu) que a pequena respondesse que balada era algo de comer, um brinquedo ou jogo de videogame):
-Balada, pai - responde levantando a parede da tenda e olhando o pai com uma expressão alegre e senhora de toda a sabedoria baladística do mundo - é onde as pessoas dançam e se divertem.
Em sendo os olhos a janela da alma os do pai deveriam estar evidenciando a mais aterradora, calamitosa e desalentadora paisagem; tocada (ou não) pelo desterro de esperança claramente estampado no semblante do pai MC tenta confortá-lo de alguma maneira:
-Mas não se preocupa porque - diz enquanto se volta para ajeitar algumas bonecas em torno de uma mesa - menino não entra!
E sorridente, olhando novamente para o pai - que a aquela altura deveria ser branco como cera - diz:
-É uma balada só de meninas!
...
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