Durante o dia todo o pai aflito procurou por suas lentes corretivas,
chão - onde eles geralmente ficam apoiados em livros, gavetas (exceto
talvez a de cuecas e meias por achar que ele mesmo -e nem ninguém -
jamais os guardaria em tal local), armários, sob (e também sobre e até
mesmo dentro) a geladeira; pias (cozinha, banheiro, tanque), escadarias,
corredores, vizinhos, parentes -
próximos e distantes (inclusive para sua filha de 4 anos que jurou
desconhecimento total do paradeiro do objeto com ares de imaculada
inocência); mesmo aqueles que não via há alguns anos - e até mesmo
desconhecidos. Cansado - e com uma cefaleia crescente - abre a gaveta de
documentos e separa a receita para providenciar um novo par.
MC
chega em casa da escola, lépida, faceira, serve-se de pão e biscoito,
toma refrigerante e suco; quando dá de caras com o pai cabisbaixo e
pergunta:
-Que foi pai!?
-Perdi o óculos filha...
Com um sorriso de canto de boca a guria pergunta:
-Ainda não achou!?
Vira-se sobre os calcanhares e parece ignorar o sofrimento do pai
completamente. Subitamente a guria emerge do quarto com os óculos na mão
esculpida em um semblante irônico e triunfante - que só pode ter sido
herdado da tia por parte de pai - e pergunta:
-Por que não procurou na sua gaveta de cueca!? - tomada de uma alegria contagiante diz:
-Foi lá que eu escondi!
...
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