MC folheava uma revista dominical, daquelas que vêm embutidas nos jornais dominicais - quer tu goste ou não.
Folhas viradas, caretas para as receitas, sorrisos para os lançamentos
de bonecas e de repente se atenta a seção de moda; folheia, consente com
a cabeça, estala o muxoxo e finalmente capricha no modo garboso de
dobrar a página virando-a para o pai - como sempre - distraído e profundamente absorto por uma leitura qualquer:
-O que tu acha dessa pai!?
O interlocutor tira os do livro e encara um espécime feminino com corpo
de flamingo (não importa de que angulo se contemple há pernas);
vestida - para não dizer camuflada - com cores de pavão; ornamentada com
uma série infindável de contas, colares e pulseiras de cores
incontáveis e com uma cabeleira loira esvoaçante que só se consegue em
ensaios de moda e filmes sobre catástrofes naturais.
Intrigado com a pergunta e preocupado com o rumo da conversa o pai - mui inutilmente - tenta desvendar as intenções da guria:
-O que eu acho de que!?
-Dessa titia - insiste - o que tu acha!?
-É bonita...
Antes mesmo que pudesse completar qualquer raciocino ou esboço MC
lenvata-se do sofá e um movimento fluído e dá por encerrada a conversa
com um berro:
-Ô mãe - já correndo com encarte aberto em direção a cozinha:
-O meu pai quer que tu seja igual a essa moça da revista.
...
Não é preciso dizer que foi bastante complicado para o pai explicar o
contexto do enrosco onde foi proposital e precisamente colocado por uma
guria de 5 anos que se limitou a rir e acompanhar a argumentação
defensiva.
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