Premissa: MC não é tão ágil com o corpo quanto é com a cabeça. Uma inegável herança paterna torna a nossa heroína um pouco - para não dizer bastante - desajeitada.
Domingo à noite MC e papai decidem que é uma boa treinar os dotes ciclísticos da pequena pedalando em volta do prédio. Lá se vão os dois felizes e preparados para, finalmente, fazer a guria pedalar com confiança.
MC têm - já aos 3 anos - alguns hábitos - para não dizer manias - interessantes. Para começar a pedalar há um ritual que precisa ser cumprido:
01 - Subir na bicicleta e apertar o freio:
Ela ainda não sabe exatamente qual a função daquela alavanca mas faz questão de checar seu funcionamento.
02 - Abaixar a cabeça, fixar o olhar nos pedais e move-los freneticamente - várias vezes mesmo - para trás.
É, eu também ainda não cheguei a conclusão do porque ela faz isso mas ela não sai do lugar se não o fizer.
03 - Reverter o movimento do passo 02 sem entretanto levantar a cabeça e - em total contrariedade a norma 01 da convenção Universal sobre ciclismo onde se lê - olhar para frente.
Lá estávamos nós depois dos rituais:
-Olha para o Papai filha! - Chama o pai ensaiando uma dancinha (unanimemente aprovada pelos que passavam na calçada) idiota.
-O que foi - pergunta a pequena parando de pedalar - Fe?
-Nada filha! Vamos começar de novo, tá!? Tu começa a pedalar e olha para o papai, tá bom!?
-Fe, como eu pedalo se eu ficar te olhando? - Indaga MC encarando o pai com uma legítima expressão de incredulidade.
-Filha, não precisa olhar para o pedal! O seu pezinho pedala sozinho.
-Ah é!? - MC indaga aos pezinhos com a mesma expressão de legítima incredulidade.
Lá fomos nós. Repetindo o ritual e as dancinhas acima inúmeras vezes - incontáveis mesmo - até que ela começou a pegar o jeito. Ainda não com as curvas é verdade. Para essa manobra mais ousada ela simplesmente desce da bicicleta e faz a tangente de uma maneira bem manual.
Depois de um aquecimento realmente fantástico o pai decide que é hora de colocar objetivos mais sólidos:
-Vamos dar a volta no prédio neném! - Anuncia o Pai encarnando o treinador do Rocky Balboa.
MC não comenta mas enche os olhinhos esmeralda de emoção e fuzila o pai pela idéia.
-Papai vai na frente para te ajudar, tá!? - Diz o pai posicionando-se à frente da ciclista-mirim.
-Não Fe! Se você for na frente como eu vou ganhar a corrida? - Protesta MC com os olhinhos ainda carregados de emoção.
-Não filha! Não tu não vai ganhar...
-Não vou ganhar!? - Entorna o caldo a pequena MC com os olhinhos esmeralda agora cheios de lágrimas - Eu vou falar com a minha mãe!
-Não, não filha! - Responde agilmente o pai evitando a hecatombe - Não vai ganhar ainda... Nós estamos apenas treinando - Recolhendo magicamente o choro e abrindo um sorriso bem generoso MC pergunta:
-Depois tem corrida, né seu biruto!? - Confirma a pequena com o extinto competitivo aflorado.
-Claro filha! - Responde o pai erguendo a chave de casa - Tem até troféu!
Retomamos a empreitada. MC já compensava as pedaladas para trás com cada vez mais pedaladas no sentido correto. O hábito de olhar para frente ainda precisava ser melhor cultivado o que forçava o pai a constantes e repetidas dancinhas patéticas.
Lá pelo fim do segundo-quarto da volta MC anúncia:
-Fe, tô com sede!
-Dá para aguentar filha? Estamos quase do outro lado - Eu acho que agora entendo as mentiras do preparadores físicos. É quase impossível motivarr alguém sem uma generosa dose delas.
-Não Fe. Eu estou com sede e muito cansada!
Desmonta da bicicleta e põe-se a correr em direção à porta. Deixando o pai atônito no meio de uma das mais performáticas dancinhas. Já a alguns metros de distância olha para trás e se oferece para uma inversão de papéis:
-Quer andar na minha bicicleta Fe? Eu posso te ajudar!
...
Fe, não desista, pense só quando ela resolver que é hora de beijar na boca!!!!!
ResponderExcluirRê, quando ela decidir beijar na boca não sou eu quem vai ensinar... E se, somente, se ela resolver olhar para os pés e pedalar para trás na hora vai ser bastante inusitado!
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