sábado, 3 de março de 2012

Cotidiano: Ô Chorôrô

Uma noite qualquer dessa semana deveria ter sido a noite de Papai e MC. A primeira delas na verdade; eu nunca fiquei 100% só com a fera; pelo menos não é um período muito grande de tempo. Quem a conhece sabe que ela é que GRUDADA na mãe - relação simbiótica, temperada com cola de madeira e confeitada com argamassa - de um jeito bem peculiar:
-Toda criança é - Vocês em coro respondem.
-Sim, mas a Maria Clara vale por uma centena de pequenos grudentinhos - Respondo eu sem sorrir.
Voltando ao assunto -  Interrompam-me se vocês tiveram alguma dúvida ou constatação, pertinente, a fazer - era para ser uma noite de pai e filha. Confesso que passei o dia um pouco tenso. Afinal de contas ter energia para cuidar de uma criança de 3 anos - sem qualquer preparo específico (ex.: pedagogia, magistério, hipinoze, domesticar animais selvagens, guerra de trincheiras...) - é tarefa ardua. Confesso ainda que tirei alguns cochilos - que meu chefe não me leia -, me alimentei bem, enfim fiz tudo que qualquer pai ancioso faria.
Chegou a noite e tudo corria dentro do esperado, a mãe saiu de fininho e ficamos lá: eu e ela e ela e eu. Consegui, confesso, enrrola-la por 5 minutos até que veio a pergunta aterradora, aterrorizante e atordoante:
-Cade a minha mãe!?
Pai em tom calmo e controlado
-Ela saiu filha, volta já!? - Novamente a pergunta agora já carregada de emoção:
-Cade a minha mãe!?
Bom, essas foram as últimas palavras fáceis de se entender naquela noite o que se seguiu foi um chorôrô de 1 hora - sim senhoras e senhores 1 hora - ininterrupta.

3 minutos:
Pensei comigo: Vou abraça-la, sacudi-la e daqui a pouco isso passa...

5 minutos:
Completamente exausto de sacudi-la comecei a chantagem: Quer...? Ofereci tudo que vocês possam imagnar - algumas coisas que eu não tinha condição nenhuma de cumprir aliás - e nada deu resultado.

7 minutos:
Sem ter como qubebrar a resolução da guria era hora das palhaçadas físicas: Rolei, pulei, cai e cai denovo e bati a cabeça na parede - algumas vezes eu esqueci que era incenação - com força.

9 minutos:
Finalmente um pedido:
-Colo em pé!
Bom, quem a conhece e já a pegou no colo sabe que um pedido desse faz a sua servical ameaçar:
-É isso! Ou ela ou eu!
Infelizmente para a minha servical ela não chora descontroladamente! Lá fui eu com ela no colo. Eis que ela - que até então me chutava e repudiava contato - se agarra em mim...

P.S.: Senhoras e Senhores todo esse tempo vocês computem com ela chorando aos berros. Não é choramingo é berro! Entenderam!? BERROS!

... e eu logo pensei: Tenho uma chance! Levei-a até a janela e começei a contar carros:
-Em que carro a mamãe tá!?
Desisti dos carros - berros - e pensei em outra coisa

15 minutos:
Outro pedido - Quero falar com a mamãe!
Bom - pensei comigo  -  quem sabe ouvindo a voz da mãe ela se acalma e eu controno a situação.
O que era ruim acabara de piorar! Ao telefone ela SOLUÇAVA - ainda berrando - como se eu a tivesse jogado aos tubarões.

18 minutos:
Rua! Rua sempre acalma as crianças. Vesti o que encontrei a mão e fiz o mesmo com ela. Lá estávamos nós - cosplay de Saltibancos Trapalhões -  tentando sair de casa e  - denovo na fase das ofertas - oferecendo um mundo de delícias da Padaria! Nem pelo Hall nós passamos...

21 minutos:
Mãe liga de volta e já anuncia que está a caminho de casa. Desistiu do compromisso e está retornando. O que era devastador ficou ecatombico. Além de berrar, soluçar e querer colo em pé tinhamos uma criança anciosa.

1 hora:
Até a chegada da mãe - do compromisso não cumprido - foram mais 40 minutos de choro estridente, soluçante e ancioso. Tudo isso simplesmente cessou quando o objeto da angústia cruzou a porta e deu-lhe um abraço. Até risadas eu pude ouvir ao fundo.
Minha cervical rompeu relações comigo me acusando de masoquismo e prometeu que a única linguagem que nos unirá de agora em diante será: a dor.

Retirei-me em um muchocho e uma cara de desolação para dentro de mim mesmo. Culpado por não oeferecer qualquer segurança à minha pequena.
Como pode um sujeito de 32 anos - semi-maduro, consciente e criativo -  não controlar uma criança de 03 anos com quem ele convive todos os dias. Eu optei por trabalhar em casa justamente para conviver com ela. Justamente tudo isso falhou...
Na noite seguinte veio a constatação mais dolorida de uma pedagoga amiga da família:
-Ela não te enxerga como pai. Tu faz tudo por ela, sabemos disso, mas faz tudo quando a mãe manda. Na cabecinha dela se a mãe não estiver aqui tu não vais saber fazer nada.
Dolorido mas completamente verdadeiro! Ela não me enxerga como pai. Um amiguinho grande talvez mas sem qualquer autoridade sobre ela e sem qualquer autonomia pada tomar decisões por mim mesmo.  Realmente eu faço tudo por ela! Desde que acionado préviamente em resumo: cumpro ordens.
Não ordens no sentido clássico mas atendo pedidos a medida que eles surgem. É basicamente como eu ganho a vida: atendendo pedidos. Sem muita iniciativa própria apenas atendendo pedidos.
O que mudar? Ter iniciativa! Antecipar-me necessidades dela e mostrar que eu posso ser tão efeciente quanto a mãe dela. Claro, mãe é mãe e sempre será assim. Só que eu preciso ser um pai confiável em que ela possa sentir-se segura de estar com...
Berros -  senhoras e senhores - berros!

Um comentário: