quarta-feira, 14 de março de 2012
Cotidiano: Noite no Shopping - Chorôrô no Carro.
Toca o telefone e a voz do outro lado sacramenta:
-Vamos ao shopping. Assim que tu estiver pronto me encontra aqui.
O interlocutor entende o recado - mesmo não gostando nem um pouco do programa - concorda e consente:
-Tá.
P.S.: Quem é casado já adivinhou quem é quem no diálogo.
O Pai chega ao local marcado e vê que MC está tirando um cochilo - a bem dizer está desmaiada - e comenta:
-Vamos leva-la?
-Vamos! Porque se ela acordar e não nos vê a coisa fica feia! - Responde a mãe com gravidade peculiar.
-É.. - arrepia-se o pai recordando a noite do chorôrô.
Todos prontos. Mãe se posiciona ao volante e o Pai se espreme no banco de trás com MC no colo. A entrada no carro, malabarística, foi tranquila. Porém em alguma momento na transição do colo para a cadeirinha algo assustou MC. Fez-se o berreiro.
Obs..: Exatamente o mesmo tipo de berreiro que fez o Pai arrepiar-se no diálogo anterior. Aquele choro gritado, soluçado e incontrolável. Sabemos nós o que vem a seguir.
Pai segue os mesmo passos - todos eles absolutamente inúteis - da outra vez. Sacode, brinca, conta piadas, chama atenção para outras coisas. Nada - conforme sabido - é capaz de demover a nossa heroína da crise de choro! Ai entra em cena a mãe:
-Tá doendo alguma coisa filha!? - Pergunta a mãe aflita ao volante.
<Berros>
-Filha, então vamos para o hospital! - Ameaça a mãe em tom mais grave.
<Berros>
-Quer uma Barbie? - Desvia a tática. Já ficando impaciente.
<Berros>
-Vamos no MacDonald's!? - Mesmo subterfúgio aproximação diferente.
<Berros>
Obs.: Preciso abrir meu coração! Ao mesmo tempo que eu estava preocupado com a situação meu inconsciente expurgava uma série de dúvidas dizendo em alto e bom som:
-Tá vendo! Não é só com a gente.
Em outros momentos. Ao ouvir as ofertas da mãe não surtirem qualquer efeito o inconsciente comentava:
-É... não funcionou com a gente também, lembra!?
-Ô se lembro! - Respondo eu para mim mesmo em concordância silenciosa.
Em uma guinada - digna de um piloto de provas - a mãe envereda por uma rua secundária. Para o carro em frente a uma garagem e liga o pisca-alerta. Agarra a pequena no colo e tenta os técnicas clássicas de interrupção física de choro. Após algum tempo a crise começa a ceder. O berreiro vira choro e do choro chegamos ao choramingo. Começa a negociação para que a guria aceite sair do colo e voltar ao banco de trás:
-Filha, a mamãe não consegue dirigir contigo no colo. O papai não sabe dirigir -
Obs..: Isso foi completamente desnecessário. Poderia ter dito que o papai veio de plutão e que ainda não pode dirigir aqui, enfim...
- então tu precisa ir para o banco de trás.
<Choramingo e Negativa de Cabeça>
-Filha, o papai não sabe dirigir como vamos fazer agora!?
Obs.: Eu já disse que isso foi completamente desnecessário, né!?
<Choramingo e Negativa de Cabeça>
Obs.: Nesse momento da casa onde havíamos bloqueado - cinematograficamente - a garagem surge uma senhora. Ela jamais poderia imaginar que ao sair para fumar um cigarro iria se deparar com uma contenda familiar tão pitoresca. Ficou ela lá, assistindo a nossa negociação com a pequena e queimando um cigarro. Acho que ela pensou em se pronunciar em alguns momentos ao invés de apenas balançar a cabeça e sorrir.
Após uma longa negociação a pequena cede, com condições, para que a mãe novamente assuma o volante.
O pai senta-se agora no banco do carona e ouve a mãe soltar um suspiro:
-Ufa... - em tom de severo e sincero alívio - Nunca vi ela chorar desse jeito.
O pai sem olhar para o lado responde fazendo uma careta - que eu admito é extremamente irritante - peculiar:
-Pois eu já!
-Quando!? - Pergunta a mãe assustada.
-Aquele dia do chorôrô... - Essa noite ainda causa no pai um arrepio bem vívido - foi exatamente assim. Só que foi uma hora disso!
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