MC é movida a propósitos - nem todos eles nobres é bom deixarmos claro - e por eles derruba pequenas montanhas, luta contra gigantes e nada em lagos que povoam apenas e tão somente sua febril imaginação.
Já embuida ou tendo escolhido a cruzada no momento em que adentrou o salão não é possível dizer; o que sabemos é que a pequena chegou a festa de um casamento da família paterna decidida: aproximar os avós paternos.
Como todo casal há muito separados escolheram cantos opostos do salão para se alojarem; injuriada com a hipotenusa que separava seus objetivos MC perguntou ao pai com um ar grave no rosto geralmente simpático:
-Cadê seu pai!?
-Lá perto do banheiro - respondeu o pai absolutamente desatento.
-Por que seu pai quis ficar lá perto do banheiro!?
-Ele faz muito xixi - respondeu o pai sem entender o porque da pergunta.
-Nossa - disse a pequena dramática em tom sério - deve fazer nas calças então.
O pai gargalhou da pequena que não perdeu tempo em pedir:
-Me leva lá!?
Já partindo da mesa e puxando o pai para o centro do salão.
Lá chegando MC desvencilhou-se do pai enquanto este cumprimentava primos, tios e tias que há muito não via. Entre boas memórias, copos de chopp e nostalgia o pai perdeu de vista completamente a pequena obstinada. Quando finalmente voltou a mesa onde sua mãe estava deu de cara com uma cena inusitada: MC puxava o avô paterno pelo braço em sua direção.
O homem moreno que ficava cada vez mais rubro quando se deu conta de para onde estava sendo traggado esboçou um sorriso que deixaria constrangido o mais performático dos palhaços tristes. MC mesmo assim o trouxe, visivelmente desconfortável e contra a vontade, até o destino.
-Vó Soli - disse com um sorriso largo no rosto - olha o vô Paulo aqui!
A avó materna estampou seu famosíssimo e inconfundível: sorriso sério.
Uma mistura de contentamento e expressão de reprovação que deve exigir uma ginástica facial de proporções inimagináveis.
Os dois se entreolham e o avô paterno mais rápido do que veio sumiu em meio as pessoas que conversavam no salão.
MC então um tanto entristecida fez uso de uma flor subtraída dos arranjos de mesa para uma última e desesperada tentativa:
-Vó Soli - disse com um sorriso largo o suficiente para fazer sentarem-se a mesa palestinos e judeus - olha o que o vô Paulo te mandou!?
Oferecendo a pequena flor para a avó em gesto de boa vontade em nome terceiros. A senhora examinou o gracejo olhou para a neta e não teve dúvidas em dizer de forma séria e repreendedora:
-Princesas não roubam flores!
-Vó - disse ofertando o presente a avó - foi vô Paulo que mandou.
A avó fez uma cara grave o que desanimou de vez a neta.
A pequena então foi até o pai, jogou-se em uma cadeira ao lado dele e disse em tom solene:
-Oi.
O pai que já tinha descoberto o que a pequena tinha em mente assentiu com a cabeça, ajeitou-a em seu colo e deu-lhe um forte abraço. Com o rosto colado ao do pai disse visivelmente desanimada:
-Seu pai não é mais apaixonado pela sua mãe!
O pai tentando não rir do dissabor da pequena segurou o fôlego e concordou tentando emular o mesmo desapontamento:
-Eu sei.
MC então olhou o pai nos olhos e como quem reporta um empreendimento falho disse passando a mão no rosto dele:
-Desisto.
...
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